Blog do Roberto Silva


ENTREVISTA

NICK - EX-JOGADOR DE FUTEBOL

Outro dia conversava com meu amigo Nick, que encerrou a carreira recentemente e ele abordou um assunto que achei interessante e em razão disso resolvi publicar uma matéria com ele: A falta de preparo psicológico do jogador de futebol na hora de parar.

Nascido Ednardo e que virou Nick após ser Miquimba, está atualmente com 33 anos de idade e decidiu encerrar a carreira após 15 anos de vida profissional, tendo passado por diversos clube no futebol brasileiro, além de 9 anos no exterior, tendo atuado na Bélgica, Dinamarca, Iran e Cingapura. Nesse bate-papo, Nick revela a dificuldade da maioria dos atletas em traçar um horizonte após o encerramento da carreira de atleta.

Em 2009 eu recebi um telefonema da jornalista Mariana Becker, correspondente internacional da TV Globo, me pedindo o contato de um jogador brasileiro em Cingapura, já que ela cobriria um GP de Fórmula 1 naquele país e a Globo havia liberado para que ela fizesse uma matéria para o Programa Esporte Espetacular com jogador brasileiro que atuasse lá. De pronto mandei para Mariana o contato do Nick e a matéria foi ao ar dias depois (o vídeo está no conteúdo desta matéria).

FICHA DO ENTREVISTADO

Nome: Ednardo de Souza Moura (Nick)

Naturalidade e Idade: Espírito Santo e 33 anos (24/10/1977)

Equipes que jogou: Flamengo-RJ (categorias de base), Desportiva Ferroviária-ES, Atlético-PR, Brasil de Farroupilha-RS, Veranópolis-RS, Rio Branco de Paranaguá-PR, KFCO Wirijk-Bélgica, Germinal Beerschot-Bélgica, Esbjerg-Dinamarca, Mes Kerman-Iran e Balestier Khalsa-Cingapura.

 

Vídeo gravado com Nick em 2009, época em que jogava pelo Balestier Khalsa-Cingapura:

 

BRS- Qual o pricipal motivo o fez decidor pelo encerramento da carreira?
Nick- Já estava há 9 anos longe do Brasil e além disso minha carreira não seguiu para o caminho que imaginava quando comecei. Perdi o prazer de jogar futebol.

BRS- Ao parar, você tinha em mente que carreira profissional seguir?
Nick- Não sabia, passavam muitas coisas pela minha cabeça, mas nada me despertava paixão como o futebol e acredito que este seja o problema da maioria dos jogadores que estão parando de jogar futebol.

BRS- Daqui para frente, a curto e médio prazo, você imagina alguma carreira profissional? Algo ligado ao futebol?
Nick- Imagino. Quero me formar em direito e quem sabe um dia seguir a magistratura. Sou muito grato ao futebol, mas gostaria de seguir uma carreira sem relação com futebol.

 


Nick no Iran

 

BRS- Sua maior preocupação é em relação ao futuro do ex-atleta e seu despreparo na hora de parar. Como você acredita que essa situação pudesse ser diferente? Você acha que poderia haver uma espécie de associação de jogadores que pudesse auxiliar o jogador na hora da decisão de encerrar a carreira?
Nick- Com certeza. Essa situação me incomodava muito, o fato de não saber o que faria após o encerramento da carreira. Estava no Iran e não tinha ganhado milhões, então ficava pensando como seria minha vida fora do futebol. Aqui no Espírito Santo temos uma associação chamada AGAP, que vem inserindo muitos ex-atletas no mercado de trabalho e fornecendo bolsas de estudos para atletas que queiram estudar. Fico triste porque não sinto a classe unida e acredito que perdemos muito com isso. Tem atletas aqui que nem conhecem o trabalho da AGAP e só procuram o serviço quando estão em momento de dificuldade, como em contusões e desemprego.

BRS- Levando-se em consideração aspectos físicos, psicológicos e financeiros, em qual destes você acredita que ainda pudesse continuar sua carreira profissional?
Nick- Físicos. Tive sorte de nunca ter me machucado gravemente, por isso fisicamente poderia ter continuado.

BRS- Quais os maiores ensinamentos que sua carreira trouxe para sua vida pessoal?
Nick- Que o mundo é bem maior que imaginamos. Digo isso porque vejo o mundo do jogador de futebol bem limitado. Muitos de nós não sabemos nem nos expressarmos, deixamos nossas vidas nas mãos de empresários e de nossa família. Acredito que a grande maioria, com algumas exceções, somos muito acomodados.

BRS- A carreira do jogador profissional proporciona angariar amizades verdadeiras?
Nick-  Sim, mesmo que poucas ainda mantemos contato, mesmo que esporádicos.

 


Nick em visita à região de Ventimiglia (Itália)

 

BRS- Você teve alguma decepção ou mágoa com alguma situação ou pessoa em sua carreira?
Nick- Sim. No Iran fui obrigado a jogar em um clube contra minha vontade, chamado Mes Rafsajan. Caso não fosse, não receberia meu salário do ano anterior. Tinha meu apartamento para pagar, então não tive escolha, tive que ir. Isso foi em 2008, um dos piores anos que vivi. Esse fato de certa forma prejudicou muito minha carreira, porque já vinha infeliz naquele país.

BRS- Se pudesse voltar no tempo, faria algo diferente do que fez em sua carreira?
Nick- Sim, muitas coisas. Teria sido mais sério (brincava demais). Chegado sempre mais cedo, investido melhor meu dinheiro, aprendido inglês antes de sair do Brasil e estudado mais, muito mais.

BRS- Quais foram os momentos da sua carreira que ficarão marcados em sua memória?
Nick- Uma partida em 1996 entre Atlético-PR x Seleção da Ucrânia. Entrei no segundo tempo no lugar do Paulo Rink e acabei com jogo, apesar de não ter feito gols, fiz uma grande exibição (a partida amistosa referida por Nick aconteceu no dia 16/02/1996 e terminou 5x3 para o Furacão. Link com detalhes da partida:
http://papoatleticano.blogspot.com/2010/02/jogos-memoraveis-atletico-5x3-selecao.html).

BRS- A carreira do jogador profissional é considerada curta. Finaceiramente falando, você acredita que o "boleiro" passa uma imagem irresponsável pela "gastança" com coisas fúteis e a despreocupação com o futuro?
Nick- Sim, mas muitas vezes não é culpa exclusiva do jogador. Em muitos casos falta uma estrutura familiar forte. Pai e mãe também não conhecem nada de finanças e negociação e o jogador fica a mercê de um monte de empresários, em sua maioria mentirosos e incompetentes. Geralmente gasta-se muito achando que aquela situação vai durar para sempre.

 


Nick no estádio do Balestier Khalsa, em Cingapura

 

BRS- Ainda falando de finanças. O Nick parou com o "boi na sombra"? Depois de várias temporadas no exterior deu para fazer um "pé-de-meia"?
Nick- Certamente não, porém por outro lado foi bom, porque as vezes estar numa situação de conforto atrapalha você a evoluir como ser humano e busco sempre minha evolução e ser sempre um ser humano melhor.

BRS- Na sua opinião qual o fator principal que motiva o êxodo de jogadores brasileiros para o exterior?
Nick- Venhamos e convenhamos: Aqui no Brasil é muito desorganizado. Times grandes atrasam salários e todos vão vivendo assim, achando isso normal. Jogadores são agredidos por torcedores frustrados, tendo que pedir desculpas por terem jogado mal ou por alguma desclassificação em alguma competição e isso é inadmissível. Precisamos evoluir nese sentido.

BRS- Nick, você realizou todos os seus sonhos/objetivos em sua carreira? Aconteceu da forma como planejou?
Nick- Certamente não. Sonhava jogar em um grande clube europeu e passei longe disso, ainda assim sou muito grato pela vida, lugares e pessoas que conheci e convivi.

BRS- Que conselhos você daria aos mais novos que estão iniciando a carreira como jogador de futebol?
Nick- Dar conselho é complicado. Por mais que se fale, o jovem é "muito esperto" para ouvir, mas vamos para o velho clichê: Estudem meninos, porque um dia isso acaba...



Escrito por Roberto Silva às 14h44
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