Blog do Roberto Silva


ENTREVISTA

ALEXANDRE AGULHA- TREINADOR- ILHAS FAROE

A grande maioria dos garotos brasileiros sonha ser jogador de futebol e comigo não foi diferente, entretanto não alcancei meu objetivo após algumas tentativas em alguns clubes, dentre eles o Botafogo, em 1988.

Foram três meses de valia em minha vida, pois hoje tenho orgulho de dizer que convivi com pessoas que posteriormente tornaram-se jogadores profissionais, dentre eles Edmundo, Dejair, Rogério Pinheiro (citando os atletas de maior renome) e Alexandre Agulha, o entrevistado da vez no blog do Roberto Silva.

Passados 23 anos desde o longínquo 1988, retomei recentemente o contato com o Alexandre da Silva Braga, então lateral-esquerdo daquela vitoriosa equipe juvenil do Botafogo em 1988. Agulha vive há dez anos nas Ilhas Faroe (território independente da Dinamarca, formado por 18 ilhas e ladeado por Escócia e Islândia).

Fluminense de Duque de Caxias, Alexandre, atualmente com 39 anos, deu seus primeiros passos no futebol no mirim do Botafogo em 1985 e começou uma trajetória no clube, passando por todas as categorias amadoras até chegar aos profissionais em 1993, ano que o Glorioso conquistou a Copa Conmebol com vários pratas da casa, após a saída do patrono Emil Pinheiro.

Após saídas e retornos de empréstimos para Castelo-ES e Rio Branco-ES, Alexandre deixou definitivamente o Botafogo em 1995. Moto Clube-MA, Olaria-RJ e Catuense-BA, foram outros clubes que Alexandre Agulha defendeu.

Desde 2001, Alexandre Agulha está no 07 Vestur, tendo encerrado a carreira de jogador profissional há 2 anos e se auto-intitulando com um "faz tudo" do clube: - Sou treinador como base, mas oriento e auxilio em todas as áreas do clube. Recentemente Alexandre Agulha fez um estágio de treinador de futebol no FC Copenhague, da Dinamarca.

Treinadores, "Gol do Fantástico" e estórias engraçadas, foram alguns dos ingredientes desta resenha.

 

BRS- O que representou sua formação como atleta no Botafogo FR? Ainda tem contato com jogadores da época?
Agulha- O Botafogo não foi só uma escola de futebol, mas também de vida. Tendo como base minha família, pude no Botafogo ver e fazer um balanço de tudo que era certo ou errado para minha vida pessoal e agradeço a cada pessoa que fez parte desse processo, mesmo que alguns desses não mereçam a sombra que possuem, mas foram muito mais coisas positivas que negativas. Sim, tenho contato com vários deles. Uma pena ter perdido contato com muitos outros.

BRS- Após anos de conquistas na base alvinegra, veio a profissionalização. Que fator foi preponderante para sua saída definitiva após alguns empréstimos?
Agulha- Em 1995, após um empréstimo ao Rio Branco-ES por solicitação do treinador Joel Martins, que havia sido meu treinador na base do Botafogo, retornei ao clube após um Estadual irrepreensível, me sentindo em um grande momento e encontrei o Paulo Autuori, um treinador a quem devo respeito. Num diálogo, ele afirmou que eu seria a terceira opção para lateral-esquerda, preterido por Jefferson e André Silva, que nunca havia sido lateral na base, exceto por improvisação. Ressalto que o André é meu grande amigo e que mereceu ser campeão Brasileiro em 1995. Então decidi sair.

BRS- Como atleta profissional você considera ter feito algo ou tomado alguma atitude que tenha prejudicado sua carreira e que, analisando hoje, você faria diferente?
Agulha- Acho que a atitude de ir ao departamento técnico e pedir minha "carta de liberação" foi meu maior erro. Por achar que não teria chances de jogar, achei que tentar vôos paralelos após 10 anos de Botafogo seria a decisão mais acertada. Só achei!

BRS- Você teve treinadores de renome em sua carreira. Qual deles foi o mais importante, que deixou um aprendizado? Atualmente como treinador, você se espelha específicamente em algum profissional?
Agulha- Todos deixaram uma marca, desde os da base como Tuninho Alvarenga, Renato Trindade, Clayton Val e Ercy Rosa, até os profissionais como Paulo Emílio, Carlos Alberto Torres, Tata, Joel Martins, entre outros. O mais carismático talvez tenha sido Joel Martins, mas pelo título da Conmebol, um título internacional, o Carlos Alberto Torres. Ele soube alinhar uma equipe formada por muitos jogadores formados no clube (fato raro de acontecer) e jogadores "refugo" de outros clubes, portanto Carlos Alberto Torres foi o treinador que mais marcou. Mas todos os treinadores, sem exceção foram, positivamente ou negativamente importantes. Não tendo trabalhado junto, Telê Santana e Carlos Alberto Parreira merecem destaque.

BRS- Conte-nos sobre o "Gol do Fantástico".
Agulha- Foi em 95, jogando pelo Rio Branco-ES, contra o São Mateus: córner pela esquerda e eu sempre me posicionava no rebote, fora da grande área. O goleiro adversário rebateu e a bola veio no meu peito. Um zagueiro em velocidade impediu meu chute e não me restou outra alternativa a não ser dar-lhe um lençol e sem deixar a bola cair, bati de canhota no ângulo direito. Isso atrai a mídia esportiva de um modo geral e esse é o lado bacana da carreira: a mídia, a divulgação do seu trabalho, o reconhecimento na rua.

 


Alexandre com seus comandados na base do 07 Vestur

 

BRS- Em 98, ano de sua primeira experiência no exterior, você estava trabalhando em Rondônia, um centro afastado do eixo de maior visibilidade da mídia esportiva. Naquele momento você já pensava em encerrar a carreira de jogador e o que representou sua chegada à Islândia em termos pessoais e profissionais?
Agulha- Sim, totalmente decidido a encerrar. Achei que depois de jogar na Catuense-BA, Olaria e duas passagens pelo Moto Clube-MA, não estava acontecendo como havia planejado. Decidi buscar educação na área de treinador, relizando um curso pela ABTF e um amigo me convidou a realizar esse trabalho em Rondônia, numa escola de futebol particular chamada ATLAS SC. Tudo transcorria muito bem até que um telefonema mudou radicalmente meus planos: A Islândia seria minha última chance, ainda com 26 anos e meus olhos brilharam. Era o retorno ao sonho de uma realização interrompida e minha motivação foi às alturas e era isso que eu queria.

BRS- O que você sabia sobre a Islândia e o que pesou para que aceitasse a proposta? Quais foram as principais dificuldades na adaptação, dentro e fora de campo?
Agulha- Sempre busquei, mesmo sem internet na época, informação sobre os clubes que joguei, a história, as cidades, os atletas e o agente que me levou também me deu todas as coordenadas. Financeiramente foi um grande salto, a proposta era irrecusável, mesmo tendo um bom salário em Rondônia, melhor inclusive que os últimos três clubes que havia jogado, essa não foi a questão determinante, mas sim a possibilidade de retornar a um estádio, de treinar, de ter os mesmos sentimentos dos quais me preparei e bem nos últimos anos. Digo que financeiramente não foi determinante pois nunca me iludi com isso, já que vim de uma classe média e vivenciei como profissional os dois lados da moeda e sempre tive muito equilíbrio com relação a isso. As dificuldades na Islândia foram muito grandes. Mesmo tendo feito uma base física antes de viajar com meu grande amigo preparador físico Jéther Bernardo, lá encontrei atletas de 2 metros de altura e muito fortes fisicamente. O frio, onde treinar no mês de março era no ginásio ou na praia, no espaço deixado pelas ondas entre o mar e uma parede de gelo, no mais eram 4 metros de neve em todos os outros locais. A alimentação, a comunicação, mesmo com inglês razoável, o estilo de jogo, as amizades.

BRS- Passados três anos na Islândia, você foi jogar nas Ilhas Faroe, onde reside hoje. Como é atualmente seu trabalho no 07 Vestur?
Agulha- Recebi o convite do atleta e grande amigo Jens Erik Rasmussen, com 25 participações em jogos das Ilhas Faroe. O clube tinha um grande problema, porque unido por 3 clubes, encontrava divergências de bastidores e estava as vésperas de separar novamente. Eles acreditaram num projeto de trazer dois brasileiros com mais carisma e tendo a Bandeira brasileira como "proteção e benção". Mesmo colocando o time na divisão principal no primeiro ano a divisão acabou ocorrendo, porém consegui convencer os dirigentes a importância de manter a equipe de base unida por mais dois anos e isso aconteceu, mas não aproveitar determinados jogadores por imposição, filhos de dirigentes nas equipes A da base tornou a união insustentável. Após a conquista de alguns títulos e colocação de atletas em todas as seleções de base do país, fato jamais ocorrido nos clubes, eles entenderam, com novos diretores, que a união da base se fazia necessária novamente. Hoje os clubes são unidos da base até a equipe profissional, com exceção de um clube isolado dos outros dois na equipe principal, disputando a divisão inferior nas Ilhas Faroe e não entendem a necessidade da união. Só para ressaltar: os atletas que formam essa equipe são os mesmos filhos e pais que fizeram a desunião completa dos 3 clubes.

BRS- Seria pretensão dizer que o futebol das Ilhas Faroe divide-se em "antes e depois de Alexandre Agulha"? Como você considera estar colaborando para melhoria do futebol no país?
Agulha- Acho que tenho uma grande parcela no trabalho técnico desenvolvido no país. Aqui achei profissionais de altíssima competência e formação. Mesmo estando num país muito pequeno (cerca de 50 mil habitantes), porém num nível educacional excelente, onde crianças com 10 anos de idade tem domínio parcial de comunicação em 3 idiomas.

BRS- Em termos estruturais como você analisa o atual momento do futebol nas Ilhas Faroe?
Agulha- A estrutura é semi profissional em todos os sentidos. Uma enorme vontade de se aproximar dos grandes centros, mas a distância ainda é muito grande. Programação esportiva é apenas as segundas feiras a noite; público nos estádios s]ao 3 mil pessoas numa final ou em jogos contra equipes do exterior na UEFA ou Pré Champions League; a seleção local coloca 5 ou 6 mil pessoas nos estádios quando jogam contra "super potências" como Alemanha, Itália, França. A paixão da torcida é parecida com a brasileira: gritos, crianças com rostos pintados. Cada torcedor se orgulha do seu time. A estrutura é perfeita pro "mundo Ilhas Faroe". Levei um projeto à federação local para enviar à FIFA, questionando a possibilidade de abrir uma vaga na Copa do Mundo, numa disputa mundial entre países com menos de 250 mil habitantes. Eles gostaram da idéia, mas não sei ao certo se levaram a frente.

 


Juvenil do Botafogo 88. em jogo na Gávea: Isac, Fábio, Cláudio Silva, Eduardo, Alexandre Agulha, Fernando e dr. Adilson. Agachados: Raí, Dejair, Sandro Silva, Lima, Ednélson, Reginaldo Pinguim e Luis (massagista)

BRS- Em todos eses anos no exterior, alguma estória engraçada, curiosa ou embaraçosa que mereça ser contada?
Agulha- Muitas. Comunicação são as mais hilárias, que leva ao constrangimento incial e infinitas risadas depois. Dois casos:

Na Islândia: Uma estória engraçada aconteceu numa loja de revelação de filme. Disse aos dois companheiros brasileiros que não era uma regra, mas várias palavras em português terminadas em "ão" quando traduzidas para inglês, as palavras são repetidas e a terminação vira "tion" (ex. satisfação=satisfaction; vibração=vibration). Fomos para uma partida em Reykjavík e nos separamos em uma rua de várias lojas no centro da cidade. Eles entraram em uma loja e um deles queria revelar um filme. Ao entrar na loja percebi que eles tentavam de todas as maneiras a revelação do filme e eu já havia escutado a palavra "revelation" da porta da loja. Já entrei rindo, pois o termo estava completamente errado: o correto seria "film processing". Eles ficaram bravos comigo, dizendo que eu não sabia nada de inglês (risos).

Nas Faroe: Estávamos em um jogo truncado em casa e a vitória nos daria o acesso à divisão principal antecipadamente. O brasileiro Clayton ouvia a todo tempo nosso zagueiro gritando "go Clayton!", "go Clayton!", que significa "vai pra cima Clayton!". Percebi que o Clayton não estava muito feliz e o questionei sobre o que estava acontecendo e ele me respondeu: "Esse FDP aí gritando o tempo todo no meu ouvido, eu sempre cercado por 2 ou 3 marcadores, os caras mais fechados que Bangu 1 e ele gritando "pro gol Clayton!", "no gol Clayton!". Fala com ele lá pra calar a boca"

BRS- O que representou o estágio recente no FC Copenhague, da Dinamarca?
Agulha- De grande valia estar atualizado com o que está acontecendo no futebol. Sei, por exemplo, que mesmo o Barcelona defendendo uma postura de como jogar o futebol moderno, possuem um sub-17 que fazem ligação direta para um centroavante alto e forte, mas propaganda é propaganda. O Copenhague, baseado na DBU (federação dinamarquesa) tem um dos melhores programas de desenvolvimento para jovens atletas através de treinamentos super atualizados. Foi muito proveitoso estar lá e saber como eles desenvolvem esses trabalhos, mas em termos de qualidade final, temos aí no Brasil uma superioridade muito grande em relação específica ao Copenhague, mas os moleques são de uma disciplina incomparável. Ressaltando que meu trabalho foi só com a base do clube, porém o César Santin e o Claudemir, os dois brasileiros do clube, são pessoas muito bacanas e merecem o sucesso alcançado no Copenhague.

BRS- Quais seus objetivos a curto e médio prazo na carreira?
Agulha- Esse ano vamos em busca de títulos em várias categorias. A médio prazo acredito que deva acontecer um novo convite para dirigir as Faroe na base (sub 15, 16, 17 e 18). Recusei anteriormente por achar não estar preparado para assumir a função. As coisas tem que acontecer no momento certo.

BRS- Quem foram ou são os maiores incentivadores da sua carreira?
Agulha- Seria injusto dizer um, foram vários, alguns até citados em perguntas anteriores, mas como costumo dizer, a vida é um grande quebra cabeças e a ausência de uma peça faz você não completar sua vida. Se esse quebra cabeças fosse um corpo humano, certamente meus pais seriam o coração.

BRS- Deixe uma mensagem para os internautas que acompanham o blog do Roberto Silva.
Agulha- Aos jovens atletas que tem o sonho de tornarem-se profissionais do futebol: Nunca desista do seu sonho, lute incansavelmente por isso. O funil tem boca larga e final curto e pequeno e mesmo ao sair dele você não tem garantias de sucesso, mas ao fim da vida você nunca terá o sentimento de arrependimento de não ter entrado no funil.


Alexandre no FC Copenhague-Dinamarca



Escrito por Roberto Silva às 21h39
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